44
FAVELA INOVA - A FORÇA DAS STARTUPS DENTRO DAS
COMUNIDADES VULNERÁVEIS NO BRASIL
FAVELA INOVA - THE STRENGTH OF STARTUPS WITHIN
VULNERABLE COMMUNITIES IN BRAZIL
Diego Muniz Braga*
1
Centro Universitário Augusto Motta UNISUAM - Brasil
Claudia de Freitas Lopes Costa
2
Centro Universitário Augusto Motta UNISUAM - Brasil
André Luis Azevedo Guedes
3
Centro Universitário Augusto Motta UNISUAM - Brasil
RESUMO
O empreendedorismo no Brasil tem crescido com o agravamento das questões sociais
mundiais, no entanto, as favelas têm um papel fundamental para a economia na base da
pirâmide. uma potência que pode ser utilizada para fomentar negócios por meio do
empreendedorismo e da inovação, principalmente em localidades vulneráveis. O objetivo
deste artigo é demonstrar como foi construído o programa FAVELA INOVA que é uma
tecnologia social para gerar renda e empregabilidade às comunidades, pois o dinheiro
gerado pelas soluções criadas por empreendedores de favelas circula e é reinvestido pelos
moradores, de forma a desenvolverem melhorias na própria comunidade. O artigo
demonstra uma tecnologia social pode ser benéfica para os empreendedores de favelas
em qualquer território do mundo, com vistas ao desenvolvimento local em conexão com
1
d Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local, Centro Universitário Augusto Motta, Rio de
Janeiro, RJ 21041-010, Brazil;
Autor correspondente: diego.braga@unisuam.edu.br; Tel.: +55-21-97311-0611
2
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local, Centro Universitário Augusto Motta, Rio de
Janeiro, RJ 21041-010, Brazil;
claudiacosta@unisuam.edu.br
3
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local, Centro Universitário Augusto Motta, Rio de
Janeiro, RJ 21041-010, Brazil;
andre.guedes@unisuam.edu.br
45
as soluções dos problemas globais. O programa impacta positivamente jovens em fatores
ligados às questões sociais, econômicas e ambientais nas comunidades mais vulneráveis.
Palavras chave: Impacto Social Empreendedorismo Inovação ODS Startups
ABSTRACT
Entrepreneurship in Brazil has grown with the worsening of global social issues, however,
favelas play a key role in the economy at the bottom of the pyramid. There is power that
can be used to foster business through entrepreneurship and innovation, especially in
vulnerable locations. The objective of this article is to demonstrate how the FAVELA
INOVA program was built, which is a social technology to generate income and
employability for communities, as the money generated by solutions created by favela
entrepreneurs circulates and is reinvested by residents, to develop improvements in the
community. community itself. The article demonstrates that social technology can be
beneficial to slum entrepreneurs in any territory in the world, with a view to local
development in connection with solutions to global problems. The program positively
impacts young people on factors related to social, economic, and environmental issues in
the most vulnerable communities.
Keywords: Social Impact Entrepreneurship Innovation SDGs Startups
1 INTRODUÇÃO
Toda sociedade, ainda que em declínio, é necessariamente um organismo em
constante mutação, que, com o passar dos anos, induz comportamentos naturais por parte
de seus atores sociais. Uma mudança nesses padrões pode ser notada de tempos em
tempos, eles são reconhecidos, identificados e agrupados por um certo inconsciente
coletivo, sendo essa a imagem em que reconhecemos algo.
Para Baum e Silverman (2004), Bocken et al., (2014) e Chang (2004), uma startup
é um empreendimento empresarial ou um novo negócio na forma de uma empresa, uma
organização temporária destinada a desenvolver um modelo de negócios repetível. Essas
empresas, geralmente criadas recentemente, são inovadoras e utilizam um processo de
desenvolvimento, validação e pesquisa para o crescimento alvo.
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As startups frequentemente são consideradas empresas exclusivamente de base
tecnológica, mas isso não é necessariamente verdade: a sua essência geralmente está
relacionada aos conceitos de ambição (PERIN, 2015), inovação (SIGNORI et al., 2014),
escalabilidade (DE MELO; MORAIS; ZDANOWICZ; AULER, 2020) e crescimento
(CUNHA FILHO; DOS REIS; ZILBER, 2018).
Para Hawkins (2013), as startups podem vir de todas as formas. Algumas das
tarefas críticas são: construir uma equipe para garantir habilidades e recursos essenciais
para conduzir pesquisas e construir um primeiro Produto Mínimo Viável (MVP), a fim
de validar hipóteses, avaliar e desenvolver as ideias, além de oportunidades para
estabelecer uma compreensão mais profunda dos conceitos de negócios, bem como o
potencial comercial.
Termos como empreendedorismo e a inovação se relacionam de forma positiva
e sinérgica nas organizações que os empregam, bem como em suas culturas e rotinas,
sendo esta combinação um elemento diferencial e estratégico no que tange à
dinamicidade e à incerteza do macroambiente corporativo (ZHAO, 2005). Segundo
Zhao, inovações são a principal força motriz do desenvolvimento econômico e do
aumento da produtividade em uma sociedade baseada no conhecimento.
As empresas startups são a forma mais adequada de implementação de
invenções e, consequentemente, o melhor mecanismo para a comercialização de
novidades tecnológicas. Nesse contexto, o empreendedorismo social se diferencia do
empreendedorismo propriamente dito em dois principais aspectos: os bens e serviços
são produzidos para solucionar problemas sociais; e não se destina somente aos
mercados, mas às comunidades socialmente vulneráveis. Assim, o empreendedor
social (GENÚ, 2018) pode ser considerado um tipo especial de líder (CRUZ, 2012; DE
QUEIROZ BRUNELLI, 2018), pois suas ideias e inovações são o combustível para
encontrar soluções para os problemas sociais.
O empreendedor social é muitas vezes mais criativo (GENÚ; GÓMEZ; MUZZIO,
2018) e comprometido do que empreendedores privados, porque os riscos estão
relacionados à vida humana. As ideias dos empreendedores sociais se espalham,
diferentemente dos empreendedores por oportunidade, que podem se dar ao luxo de não
precisar necessariamente de dinheiro para levar comida para casa no mesmo dia, não
tendo a possibilidade de passar fome.
47
O empreendedorismo é um fator de sustentabilidade nos territórios onde as
pessoas que vivem em comunidades vulneráveis atuam, em pesquisas sobre os temas de
cidades inteligentes, cidades sustentáveis e empreendedorismo em favelas foi possível
vislumbrar que a inovação e a sustentabilidade são pilares para a transformação das
comunidades, principalmente as mais vulneráveis em sustentáveis (AZEVEDO GUEDES
et al., 2018; GUEDES; SOARES; RODRIGUEZ Y RODRIGUEZ (Org.), 2021;
PORTUGAL et al., 2021).
A medida de sucesso no empreendedorismo social é melhorar a qualidade de vida
dos beneficiários e ter um impacto positivo na sociedade. O empreendedorismo social é
uma questão coletiva, pois envolve a comunidade em esforços conjuntos de
desenvolvimento. A produção de bens e serviços sociais melhora as condições de vida,
que são mais valiosas, como por exemplo, solucionar as carências dessa população
(MELO NETO; FROES, 2002).
Conforme já destacado por Portugal (2021) em seu trabalho de pesquisa, durante
muito tempo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou uma
definição de favela que passa pela ideia de "aglomerado subnormal", representando isso
uma forma de ocupação irregular de terrenos de propriedade alheia públicos ou privados
para fins de habitação em áreas urbanas e, em geral, caracterizados por um padrão
urbanístico irregular, carência de serviços públicos essenciais e localização em áreas com
restrição à ocupação (IBGE, 2020).
A definição elaborada pelo Observatório das Favelas (2009) é que a favela é um
tipo de conjunto habitacional popular marcado pela elevada densidade demográfica e pela
informalidade e que pode ser compreendida como uma territorialidade integrante do
tecido urbano das cidades. Assim, embora sejam muito presentes nas metrópoles e nos
grandes centros urbanos, o que é decorrente do seu processo de formação, as favelas
podem ser encontradas em qualquer área urbanizada.
É importante ressaltar que a definição de favela não é única, assim como a
terminologia adotada para a sua denominação, que varia de país para país. A Organização
das Nações Unidas (ARIMAH, 2010; ONU, 2015) utiliza a palavra slum, em inglês, para
caracterizar uma área residencial formada por moradias construídas de materiais de baixa
qualidade, com acesso restrito à infraestrutura urbana e com elevado nível de insegurança.
Essa visão vai de encontro com DENSON (2019) que traz a seguinte reflexão A Agenda
48
2030 nos orienta a usar os recursos do planeta com equilíbrio, sem deixar ninguém de
fora do crescimento econômico.”.
Diante de todos os desafios da inovação e do empreendedorismo, surge no Brasil
um programa voltado ao público que deseja empreender, oriundo das favelas local de
moradia de pessoas com alta vulnerabilidade social chamado FAVELA INOVA. O
Programa Favela Inova foi desenvolvido inicialmente com fins acadêmicos, mas
vislumbrando o objetivo de atuar enquanto uma Tecnologia Social nos territórios
trazendo desenvolvimento local, isto é, ser compreendido como uma proposta inovadora
e replicável de viabilização da inclusão social e da melhoria da qualidade de vida de
jovens em situação de vulnerabilidade social em qualquer território, desde que obedecidas
algumas etapas metodológicas (BRAGA, 2022).
Partindo dessa perspectiva e do entendimento do impacto causado pelas altas
taxas de desemprego, o framework ganhou um terreno fácil para ser testado como um
programa institucional, pois permitiu aos jovens socialização de suas ideias e projetos,
bem como gerar conhecimentos e habilidades para transformar a vivência
socioeconômica dos participantes.
Por meio do empreendedorismo, o Favela Inova buscou apresentar soluções para
problemas sociais, como a inclusão social, o desenvolvimento econômico e o déficit
educacional. Os resultados iniciais de testes com o programa comprovaram a promoção
do impacto social positivo, principalmente na comunidade ao qual o jovem estava
inserido.
Considerando a Agenda 2030 das Nações Unidas e seus 17 Objetivos para o
Desenvolvimento Sustentável (ODS), pode-se perceber uma lacuna entre o
desenvolvimento das startups e o mapeamento das informações das atividades realizadas
por elas, de forma a se obter dados de impacto social cada vez mais alinhados com os
ODS.
O Programa Favela Inova, objeto deste artigo, teve mais de 90 equipes
participantes, com fomento direto ao empreendedorismo e a geração de renda local. Desta
forma, o programa além de gerar empreendedorismo, renda e inovação para as
comunidades, se alinhava aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Organização
das Nações Unidas (ONU), principalmente em relação aos ODS 4º, 8º, 11º e 17º.
49
O Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Local (PPGDL) da
universidade trouxe as ferramentas metodológicas e acompanhou todo o processo de
construção e validação do programa, bem como participou da análise dos resultados. As
iniciativas tiveram curadoria de especialistas do tema de Empreendedorismo e Planos de
Negócios e foram desenvolvidas de acordo com o que propõem Becker e Franco (2002),
que apontam o favorecimento da cooperação, através do empreendedorismo individual e
coletivo, com o fortalecimento das redes e da democracia.
2 O PROGRAMA FAVELA INOVA
Criado em 2021, o programa “Favela Inova” tem como objetivo transformar
socialmente a vida de jovens, entre 18 e 29 anos, residentes nas comunidades e bairros
periféricos do Estado do Rio de Janeiro por meio do empreendedorismo. A ideia surgiu a
partir da seguinte questão-problema: como desenvolver startups com jovens em situação
de vulnerabilidade social, com idade entre 18 e 29 anos, dentro das favelas?
Para que o desenvolvimento comunitário fosse possível, ele foi desenvolvido em
três versões incrementais, a primeira no âmbito de duas instituições sinérgicas, o Pólen
Polo de Inovação da UNISUAM (uma tradicional universidade brasileira com foco no
empreendedorismo social) e a Prefeitura do Município do Rio de Janeiro através da JUV-
RIO, sua secretaria de juventude.
a segunda versão, ocorreu em promoção conjunta do Pólen com a Prefeitura
Municipal de Niterói (RJ), através da Secretaria de Desenvolvimento Econômico
(SEDEN) e agentes locais do empresariado e da sociedade civil, através da Associação
Comercial e Industrial do Estado do Rio de Janeiro (ACIERJ). A terceira e última versão
deste programa, antes da escrita deste artigo foi desenvolvida em todo Estado do Rio de
Janeiro com foco prioritário na cidade do Rio de Janeiro (JUV-RIO, 2021) mas com
apoio de outros municípios, como o de Niterói (RJ).
Para a construção do público-alvo do programa Favela Inova, a prioridade foi de
jovens, entre 18 e 29 anos, residentes nas comunidades e bairros periféricos das Cidades
de Niterói e do Rio de Janeiro e que por meio do empreendedorismo buscavam mudar
suas vidas. A idade mínima de 18 anos foi um requisito legal, para tomadas de decisões
com maioridade etária.
50
Durante o período do programa, os participantes foram imersos em atividades e
mentorias voltadas para transformá-los em profissionais e empreendedores atrativos para
o mercado, permitindo a empregabilidade e a geração de negócios adequada dos jovens e
a garantia do diálogo entre os saberes científicos e os populares, sendo estes últimos
existentes em abundância nas comunidades mais vulneráveis. Logo, o objetivo primordial
foi promover impacto social positivo, principalmente aproveitando a comunidade no qual
o jovem estava inserido.
O programa Favela Inova obteve resultados muito além da questão acadêmica e
se tornou uma ferramenta de inserção social e econômica que visa oferecer as ferramentas
necessárias para que os jovens residentes em áreas de vulnerabilidade social sejam
protagonistas de suas próprias histórias e empreendimentos, contribuindo assim para a
transformação pessoal, familiar, econômica e social.
Em cada versão do programa foi aberto um edital definindo os critérios para
inclusão e o prazo para as inscrições das startups de favelas. Após o encerramento do
prazo de inscrição e a análise dos candidatos por assistentes sociais da UNISUAM, os
selecionados foram divididos em dois grupos: um chamado “germinação”, para quem
estava na fase de ideação ainda sem uma definição clara do seu negócio; e outro
“incubação”, para quem empreendia informalmente e desejava potencializar seus
negócios ou até mesmo já possuía um negócio com um protótipo funcional.
Para cada grupo, existiu um cronograma de atividades e etapas específicas,
conforme evidenciado a seguir:
1. Germinação: workshops, treinamentos e sessões referentes à modelagem do
negócio e demais etapas de estruturação de um novo negócio;
2. Incubação: workshops, treinamentos e disponibilização de ferramentas para
suporte na execução do negócio.
A partir dessa separação, os empreendedores iniciaram a etapa de construção dos
novos conhecimentos e habilidades, no qual foram estimulados a desenvolverem seus
negócios por meio de mentorias coletivas e individuais oferecidas pelo Pólen e sua rede
de parceiros. A metodologia do projeto se baseou na elaboração de trilhas nacionais e
internacionais de mentorias e de formação empreendedora para a criação de modelos de
negócios sociais.
51
No primeiro grupo, os projetos que ainda estavam na fase de ideação tiveram três
checkpoints (etapas de validação) para desenvolverem o Minimum Viable Product
(MVP). o segundo grupo foi composto por projetos que existiam e passaram por
processos de mentorias e ferramentas para tracionar e melhorar seu modelo de negócios,
buscando fomentar o alcance do crescimento, o impacto social positivo, a escalabilidade
e a sustentabilidade do negócio ao longo do tempo.
Os jovens, ao entrarem no programa e aceitarem as condições dos editais, se
comprometeram a cumprir diversas atividades supervisionadas (Figura 1) com o intuito
de aperfeiçoar as habilidades comportamentais e as competências de negócios, ambas
com ênfase em inovação, conexões de valor e empreendimento com uma visão
sustentável, diversa e inclusiva.
Figura 1: Trilha de capacitação Favela Inova
Fonte: Pólen UNISUAM, 2022.
O framework de construção do programa está demonstrado conforme
demonstrado a figura 1 e se baseou em métodos amplamente aceitos, por meio do Lean
Startup (RIES, 2012) e do Design Thinking (BROWN, 2010). Desta forma, foi possível
definir etapas, acompanhar, desenvolver, rever e reconstruir as ideias com
acompanhamento dos profissionais que acompanhavam continuamente e interruptamente
as equipes. Os seguintes macros passos podem ser destacados:
Passo 1: O programa foi pensado para incitar nos jovens o entendimento da "dor
do negócio”, o fator motivador de eles desejarem montar um negócio;
Passo 2: Após a identificação da “dor”, os jovens foram instados a entender o que
era um modelo de negócios e qual se aplicava à sua startup;
52
Passo 3: Com a “dor” e o modelo de negócios, tornou-se possível incentivar os
participantes a confeccionarem um esboço do seu negócio de forma gráfica, por
meio da metodologia de construção do CANVAS;
Passo 4: Criação de um primeiro checkpoint para avaliação da evolução e
entendimento dos participantes, do produto ou serviço que estava sendo
produzido;
Passo 5: Definição de uma estratégia de marketing para o produto ou serviço;
Passo 6: Definição de equipes de trabalho, com a redistribuição de tarefas;
Passo 7: Abordagem e criação de critérios para diversidade e inclusão;
Passo 8: Criação de um produto mínimo viável (MVP) para as startups;
Passo 9: Checkpoint para verificação do andamento e evolução, com o
entendimento do que é a cultura organizacional para uma startup;
Passo 10: Início da construção de um pitch para “possíveis investidores”;
Passo 11: Identificação da qualidade dos produtos ou serviços gerados até esta
etapa e os principais diferenciais em relação ao mercado;
Passo 12: Fomento ao networking e à criação de uma rede de conexões;
Passo 13: Explanações sobre o que é escala e tração para um negócio nascente;
Passo 14: Pré-avaliação com jurados de todas as soluções geradas e que
cumpriram as etapas anteriores.
O programa possuiu uma adesão de parceiros nacionais e internacionais que
vislumbraram a possibilidade de transformar as vidas dos jovens carentes com
aprendizado, educação empreendedora, diminuição das desigualdades, equidade de
gêneros, dentre outras mudanças, se alinhando a um programa cuja imagem é socialmente
positiva e transformadora em sua essência.
Cada startup de acordo com o seu grau de maturidade tecnológica ou validação de
suas ideias e projetos desenvolvidos em conjunto com a rede de mentores (profissionais
especializados nos temas relacionados ao empreendedorismo) pôde acessar um pacote de
benefícios ofertados por empresas parceiras do programa.
As mentorias permitiram apoiar e orientar o empreendedor por meio do
compartilhamento de informações necessárias de acordo com as demandas de cada
empreendimento, permitindo, inclusive, sanar possíveis dúvidas específicas, de forma
53
individualizada com as equipes. Logo, o suporte mercadológico e acadêmico foi realizado
por mentores de negócios e assistentes sociais e teve como objetivo primário potencializar
e estruturar as ideias, produtos ou serviços, para que assim, as startups conseguissem
promover o impacto social positivo em suas atividades.
O programa também buscou patrocinadores para dar suporte tecnológico às
equipes que precisavam de apoio para suas soluções, as principais fomentadoras foram:
UNISUAM, AWS Amazon e IBM. A seguir, podem ser visualizados alguns dos
benefícios ofertados de acordo com o grau de maturidade de cada startup:
US$ 5.000,00 de Créditos na AWS da Amazon;
US$ 1.500,00 de Business Suporte da AWS da Amazon;
Até US$ 250.000,00 em Créditos da IBM;
Capacitação de soft skills;
Mentorias particulares;
Mentorias nacionais e internacionais;
Participação no ecossistema empreendedor.
Para incentivar os jovens a seguirem com as empresas, se atualizarem e
proporcionar mudanças na vida de suas famílias, o Centro Universitário Augusto Motta -
UNISUAM concedeu ainda bolsas de 100% em diversos cursos de graduação, além dos
já citados prêmios. Atualmente é possível perceber a importância da concessão de bolsas
de estudos para os membros das equipes vencedoras, pois ao promover a capacitação
coletiva das equipes, se desenvolveu o caráter empreendedor potencializado com o
processo de mobilidade social.
O programa permitiu em suas três versões executadas e validadas, tanto do ponto
de vista social, empresarial, filantrópico e acadêmico, responder a principal dor dos
construtores do programa, que era como desenvolver startups dentro de favelas com
jovens em situação de vulnerabilidade social e de forma que eles usassem a economia
criativa local e as oportunidades de conexões internacionais para a geração de resultados
mensuráveis.
O programa valorizou projetos enquadrados nos seguintes eixos: saúde e bem-
estar, tecnologias assistivas, sustentabilidade, impacto socioambiental, cidades
54
inteligentes, comunidades sustentáveis, tecnologias habilitadoras, economia criativa,
educação, comunicação, audiovisual, acessibilidade e inclusão (POLÉN1, 2022;
POLÉN2, 2022).
A figura 2 traz o dia do Demoday, que foi o evento idealizado para apresentação
final dos resultados obtidos após a execução do programa na versão da cidade do Rio de
Janeiro, a comunidade e a uma banca de jurados pessoas com notório conhecimento da
área em questão, que puderam avaliar o grau de maturidade e impacto social das soluções
geradas.
Figura 2: Final do DemoDay do Favela Inova Rio em Bonsucesso, na Zona Norte do RJ
Fonte: Pólen UNISUAM, 2022
A maioria das pessoas foram transformadas positivamente pelo programa
FAVELA INOVA (figura 2), pois diversos foram os relatos colhidos pela equipe de
curadoria, acompanhamento e construção quanto à transformação das pessoas que
compunham às equipes oriundas das favelas. De forma pessoal, podemos afirmar que foi
gratificante receber os feedbacks para uma retroalimentação constante do programa, que
nos dias atuais, em 2023 está em vias de ser internacionalizado para outras localidades
mundiais.
55
O programa é uma Tecnologia Social e se baseou nas ideias do empreendedorismo
social apoiado na Agenda 2030 e nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da
Organização das Nações Unidas para que os jovens pudessem “tirar as ideias de negócios
do papel” em busca da criação, execução e o aperfeiçoamento das ideias e projetos
existentes nas favelas, executando seu modelo de negócio de forma inovadora e
competitiva. A transformação em prol do bem comum foi muito além dos negócios.
A maior parte dos participantes sinalizou como ponto forte a centralidade do
programa “Favela Inova” no fortalecimento dos seus empreendimentos, com ampliação
da consciência social e ambiental, bem como, uma possível melhoria da qualidade de
vida, com novas condições socioeconômicas devido aos conhecimentos adquiridos e aos
benefícios ofertados pelas organizações parceiras do projeto.
3 CONCLUSÕES
O empreendedorismo de favela tem crescido no Brasil, assim como o
agravamento das questões sociais ocasionadas pelas crises econômicas mundiais e pela
pandemia da COVID-19, que trouxe ainda mais pobreza e fome para comunidades que
eram vulneveis. Os negócios nascentes, como as startups de favelas ou as construídas
por jovens empreendedores ou empreendedoras de favelas estão em pleno processo de
expansão nos territórios.
O total de startups inscritas nas três edições do programa “Favela Inova” passou
de cento e cinquenta (150), ou seja, para os autores, o que era um framework acadêmico
para a inovação se tornou um programa pujante, em que os jovens de muitas localidades
vulneráveis e de diferentes bairros das cidades atendidas, buscaram mudar as suas vidas
e empreender com maior qualidade.
As oportunidades geradas transpassaram as fronteiras das comunidades e
atualmente os jovens vulneráveis que tiveram melhores desempenhos nos programas e
que foram continuamente avaliados tanto do ponto de vista socioeconômico quanto do
ponto de vista técnico estão se tornando protagonistas de suas histórias, com o auxílio
do programa FAVELA INOVA.
56
As questões sociais nas favelas podem ser utilizadas em favor das comunidades
mais vulneráveis, pois o empreendedorismo por necessidade, ou seja, aquele iniciado em
virtude de uma necessidade de vender para poder se alimentar e se manter é transformado
em potencialidade.
A força de vontade dos jovens envolvidos no projeto chamou a atenção dos
autores deste artigo, pois os mesmos demonstram uma garra superior à média dos
empreendedores, mesmo com todas as dificuldades pessoais e familiares. Muitas vezes,
um simples acesso à internet era difícil dos mesmos possuírem em suas residências devido
às condições do território onde estavam inseridos, áreas de vulnerabilidade social. O
dinheiro que circula na favela é reinvestido pelos moradores para desenvolverem novas
atividades e aumentar o desenvolvimento sustentável da comunidade local.
A tecnologia social se mostrou benéfica para os empreendedores das favelas das
cidades do Rio de Janeiro e de Niterói (região metropolitana do Rio de Janeiro), tendo
alcançado números expressivos de territórios e bairros distintos participando, um número
muito superior ao projetado inicialmente. As parcerias construídas com diferentes setores
da sociedade, como os governos municipais e as entidades da sociedade civil, da academia
e do próprio empresariado, permitiram a escalabilidade da oferta de benefícios aos
projetos dos jovens empreendedores.
A participação de empreendedores e empreendedoras que residem em diferentes
zonas das cidades também possibilitou um impacto social positivo distribuído pelas áreas
das cidades. Nesse sentido foi possível validar que as áreas de atuação de cada projeto
também influenciem na ampliação do impacto nas comunidades e localidades, afinal, a
diversidade de propostas executadas fez com que setores diferentes fossem desenvolvidos
em áreas diferentes.
A troca de conhecimentos entre as equipes se uniu a equidade e a igualdade de
oportunidades. Apesar de serem objetos secundários do programa, uma análise
aprofundada da triagem, com as assistentes sociais pode melhorar os critérios de seleção
e promover que grupos distintos, possam ter oportunidades, sejam estes homens,
mulheres, transgêneros, dentre outros, pois quanto mais diversidade na equipe
(considerando a cor, o sexo, a religião ou sua orientação sexual) maior a chance de
inclusão de pessoas pelo empreendedorismo.
57
Nos próximos programas, apontamos como oportunidade de melhoria um registro
maior da diversidade dos públicos selecionados para o programa, com ampla
estratificação, para que ao final sejam comparadas as ideias mais criativas com os grupos
selecionados. Considerando o desenvolvimento local é possível afirmar que o programa
cumpriu seu papel socioambiental, pois impactou o desenvolvimento de soluções diversas
em várias zonas e áreas de acordo com às questões sociais, econômicas e ambientais.
As favelas são uma potência para o crescimento e o desenvolvimento de soluções,
que são genuinamente realizadas e colocadas em prática por pessoas, no caso deste
programa, o público-alvo foram os jovens vulneráveis que podem ser considerados
vencedores somente por terem passado pelas trilhas de aprendizado e desenvolvimento
proporcionado por todos os agentes envolvidos no programa, muitas famílias foram
impactadas positivamente. Avançamos, na medida do possível, buscando não deixar
ninguém para trás!
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