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MODELO DE MUDANÇA DE DESIGN INCLUSIVO:
ESTRATÉGIAS PARA TER MAIS AUTISTAS NO SETOR DE TI
Daniel Couto Gatti
1
Faculdade do Comércio de SP (FAC SP) - Brasil
Giuliana L B Ferreira
2
Faculdade Martha Falcão (FMF) - Brasil
Tina Fonseca
3
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCPR) - Brasil
RESUMO
Este artigo explora a aplicação de um modelo de mudança de design inclusivo na contratação
de pessoas autistas no setor de Tecnologia da Informação (TI). Argumenta-se que a simples
inserção não garante a inclusão, que deve ser planejada de forma sistêmica para atender às
necessidades e habilidades dos autistas. Examina-se como as tecnologias assistivas e a
inteligência artificial podem personalizar ambientes de trabalho, permitindo que indivíduos
neurodivergentes maximizem suas contribuições. Por fim, apresenta-se um dodecálogo de
recomendações baseadas no incentivo, atenção e prevenção para que as empresas sejam
verdadeiramente inclusivas. O design inclusivo e a liderança comprometida são essenciais para
criar ambientes que acolham e promovam o talento dos autistas, gerando benefícios tanto para
os profissionais quanto para as empresas.
Palavras-chave: Autismo, Tecnologia da Informação, Modelo de mudança, Design Inclusivo
ABSTRACT
This article explores the application of an inclusive design change model in hiring autistic
individuals in the Information Technology (IT) sector. It argues that simple insertion does not
guarantee inclusion, which must be planned systematically to meet the needs and skills of
autistic people. Assistive technologies and artificial intelligence are examined for their ability
1
Doutor em Educação Matemática, docente e autor sob os temas da Computação, Processo de Desenvolvimento,
Modelagem de Software e Redes de Computadores. daniel@pucsp.br PUC-SP/TIDD (ORCID: 0000-0002-
7145-5649).
2
Graduada em Design pela Faculdade Martha Falcão e mestranda no Programa de Tecnologias da Inteligência e
Design Digital. ra00345326@pucsp.edu.br - PUC-SP/TIDD (ORCID: 0009-0000-4559-260X).
3
Mestre em Semiótica Tecnologia da Informação e Educação, doutoranda em Tecnologias da Inteligência e
Design Digital ra00341800@pucsp.edu.br. PUC-SP/TIDD (ORCID: 0000-0002-4766-1784).
144
to customize workplaces and help neurodivergent individuals maximize their contributions.
Finally, a twelve-point recommendation framework based on encouragement, attention, and
avoidance is presented to guide companies toward genuine inclusivity. Inclusive design and
committed leadership are essential to creating environments that welcome and promote autistic
talent, benefiting both professionals and businesses.
Keywords: Autism, Information Technology, Change Model, Inclusive Design.
1. INTRODUÇÃO
A integração de profissionais com autismo no mercado de TI está se mostrando promissora,
embora ainda enfrente desafios persistentes. Estatísticas recentes indicam que 85% dos adultos
autistas permanecem desempregados, revelando uma lacuna significativa na inclusão desses
indivíduos em ambientes profissionais. Ao mesmo tempo, o setor de TI oferece oportunidades
únicas, que muitas funções nesse campo requerem características como atenção ao detalhe,
pensamento lógico e foco prolongado, que costumam ser pontos fortes de muitos autistas.
Por outro lado, a simples inserção de pessoas autistas nas organizações o configura
inclusão. A inclusão verdadeira requer uma abordagem mais ampla e sistemática, adaptando o
ambiente de trabalho e os processos para acomodar as necessidades e habilidades dos
profissionais neurodivergentes. Isso envolve ajustes no recrutamento, formação de equipes e
uso de tecnologias assistivas.
Este artigo pretende explorar como um modelo de mudança de design inclusivo pode
ajudar as organizações a se tornarem mais inclusivas para os autistas no mercado de TI. Através
da análise das principais barreiras e oportunidades, fornecemos recomendações práticas para
criar um ambiente de trabalho que valorize e aproveite a diversidade cognitiva.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1. IDEIAS E IDEAIS DA NEURODIVERSIDADE
A Sociedade Brasileira de Pediatria (2019) descreve o autismo como uma
neurodivergência, e afirma que classificá-lo como "transtorno" pode levar à estigmatização.
145
Lorna Wing (1996), ao definir a Síndrome de Asperger
4
como parte do espectro autista, ressalta
que cada indivíduo é único e que é fundamental entender suas habilidades e desafios para
proporcionar apoio adequado. Obadia (2016) destaca a importância de intervenções precoces
e de profissionais qualificados para que crianças com autismo possam ter uma vida plena, com
acesso à educação, atividades esportivas e outros cuidados essenciais. De acordo com o portal
Neuro Conecta (2021) os autistas aprendem melhor quando estão imitando o que estão vendo.
O autista, muitas das vezes, necessita que seu dia a dia seja composto por previsibilidades.
Gaiato (2016) afirmou que o processo de diagnóstico é majoritariamente feito na
infância, assim como é possível identificar sinais logo nos primeiros anos de vida. Para o autor
“[...] saber quais são os marcos de desenvolvimentos normais (sic.) para podermos ter a
percepção necessária das diferenças e desvios desses padrões(Gaiato, 2016). É evidente a
importância de intervenções precoces e a necessidade de tratamento multidisciplinar. Devemos
salientar que quanto antes for feito o diagnóstico, mais qualidade de vida. Obadia (2016),
destaca:
Muitas vezes, a falta de informação e a ausência de profissionais qualificados para
atuarem com os portadores da síndrome provocam inércia quanto ao seu tratamento e auxílio
educacional, deixando a criança sem vida própria, abstendo-a dos estudos, dos esportes, de
tratamento médico, psicológico e outros direitos e cuidados inerentes ao bem-estar infantil
(Obadia, 2016, p.34).
No livro Autismo ao longo da vida, Kerches (2021), ressaltou que o que temos de mais
avançado no desenvolvimento de autistas são técnicas baseadas na Análise do Comportamento
Aplicada - uma ciência que trata da aprendizagem de alunos autistas em escolas. Segundo
Gomes & Silveira (2016) a aplicação dessas técnicas, não ocorre exclusivamente no autismo;
há, também, em campos como clínica psicológica, educação, economia, desempenho
esportivo, entre outros.
O neuropediatra Clay Brites (2019) afirmou que a inclusão de pessoas com autismo em
instituições de ensino é, em grande parte, atribuída à implantação da tecnologia e, também,
preza pelo equilíbrio na quantidade de tempo que as deixamos em frente a telas. O médico
recomenda revezá-lo com atividades que exijam grande parte de presença física e contato
social.
4
O site Mundo Autista (2022) informa que os ativistas autistas preferem o termo pessoa autista por estar mais
ligado aos ideais da neurodiversidade. A maioria se reconhece e se percebe como pessoa com cérebro
neurodivergente e repudia a ideia de espectro autista como uma doença a ser curada.
146
2.2. PROFISSIONAIS COM AUTISMO NO CONTEXTO DO MERCADO DE TI
Pesquisa de Paiva Jr. (2023) publicada no Canal Autismo em Dia estima que haja cerca
de 6 milhões de brasileiros com autismo: de acordo com a projeção do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística - IBGE [...] 1 em cada 36 habitantes; destes, 85% dos adultos estão fora
do mercado de trabalho, o que destaca uma lacuna crítica na integração desses indivíduos em
ambientes profissionais.
O setor de Tecnologia da Informação (TI) emerge como um campo promissor para a
inclusão desses profissionais. A natureza deste setor, que frequentemente requer um alto grau
de concentração e uma afinidade por tarefas detalhadas e sistemáticas, alinha-se bem com as
características de muitos indivíduos com autismo. A análise de dados, desenvolvimento de
software, e operações de segurança cibernética são exemplos de áreas dentro da TI onde
pessoas com autismo podem não apenas prosperar, mas também oferecer contribuições
significativas.
De acordo com uma revisão do mercado de trabalho, "o setor de TI se destaca como
uma área de grande potencial para empregar indivíduos com autismo, dadas as suas habilidades
únicas que se encaixam bem com as exigências de precisão e atenção a padrões complexos
encontrados em muitas funções de TI" (IstoÉ Dinheiro, 2023). Esta sinergia não apenas facilita
um caminho mais acessível para a empregabilidade para pessoas com autismo, mas também
sugere um modelo em que o design inclusivo pode ser particularmente impactante.
À medida que exploramos o desenvolvimento de tecnologias assistivas e a aplicação de
inteligência artificial para suporte assistivo no ambiente de trabalho, torna-se essencial
observar como essas inovações podem ser integradas eficaz e eficientemente para promover a
inclusão. Isso nos ajuda a preparar para uma discussão mais aprofundada sobre os desafios
específicos que os profissionais com autismo enfrentam no mercado de TI e as oportunidades
que o design inclusivo oferece para superá-los. Ao final deste artigo, proporemos um conjunto
de recomendações práticas e delinearemos um modelo de mudança para incorporar práticas de
design inclusivo de forma, digamos, “mais sistêmicano setor de TI.
Quando nos referimos à "forma mais sistêmica", falamos especificamente da integração
de práticas de design inclusivo de maneira abrangente e estruturada dentro das organizações
de TI. Isso implica não apenas adotar soluções (isoladas ou pontuais), mas desenvolver e
implementar estratégias que permeiem todos os aspectos da operação organizacional, desde o
147
recrutamento e a formação de equipes inclusivas até o desenvolvimento de produtos e a gestão
de projetos observando recomendações, sobretudo institucionalizando um modelo de mudança
de design verdadeiramente inclusivo.
2.3. DESAFIOS E OPORTUNIDADES NO SETOR
Ao revisarmos o Pequeno guia para a inclusão de autistas no mercado de trabalho para
organizações (Andrade, Gruetzmacher e Leite, 2024), pudemos destacar os principais desafios
e oportunidades enfrentados por essa comunidade no setor de Tecnologia da Informação. Os
desafios são notavelmente marcados pela necessidade de adaptações no ambiente de trabalho
para reduzir estímulos sensoriais excessivos, como luzes fortes ou ruídos constantes, que
podem ser particularmente perturbadores para indivíduos com autismo (Ibid p. 44-45). Além
disso, a comunicação no local de trabalho surge como um obstáculo significativo; a clareza e
a diretividade são essenciais, pois pessoas com autismo podem ter dificuldades com as nuances
de comunicação não verbal ou estilos de comunicação indiretos (Ibid., p. 17).
Os processos seletivos também representam uma barreira importante, pois muitas vezes
não são projetados para reconhecer ou valorizar as habilidades únicas e os estilos de
aprendizado de indivíduos com autismo. Ajustes nos processos de entrevista, como evitar
perguntas abstratas e proporcionar descrições claras das expectativas de trabalho, são
recomendados para facilitar uma avaliação mais justa e representativa de suas capacidades
(Ibid., p. 32).
O documento Diversity Wins: How Inclusion Matters da McKinsey & Company (2020)
versa sobre a dinâmica de inclusão, deixando claro que não basta ter representação
diversificada; é preciso que os funcionários com deficiência possam sentir a igualdade e a
justiça de oportunidades em seus locais de trabalho.
Por outro lado, o setor de TI oferece oportunidades significativas devido à valorização
de habilidades como atenção ao detalhe, pensamento lógico e capacidade de concentração
prolongada, que são frequentemente fortes em muitas pessoas com autismo. Essas habilidades
são extremamente benéficas em funções que requerem análise detalhada e desenvolvimento
sistemático, oferecendo novas perspectivas e soluções inovadoras para desafios complexos
(Ibid., p. 16). A integração de tecnologias assistivas e o uso de inteligência artificial também
são destacados como benefícios potenciais, facilitando a personalização de ambientes de
148
trabalho para atender às necessidades específicas de neurodivergentes e melhorando a
acessibilidade e a usabilidade de ferramentas e sistemas (Ibid., p. 36).
Empresas líderes no setor estão cada vez mais implementando programas de
treinamento e sensibilização sobre neurodiversidade, reconhecendo o valor da inclusão de
diversidades cognitivas e promovendo um ambiente de trabalho mais acolhedor e produtivo
para todos (Ibid., p. 61).
2.4. RETRATO DA INCLUSÃO DE AUTISTAS NO MERCADO DE TI
Antes de entrarmos nessa seara, é preciso alertar de que inserção não configura inclusão:
enquanto a inserção trata pura e simplesmente da colocação da pessoa autista dentro de um
espaço físico, sem uma verdadeira integração ou consideração das adequações razoáveis
5
para
que elas possam prosperar. Já a inclusão pressupõe que essas pessoas passam a pertencer a um
grupo, tomam parte de uma classe nas organizações- o que implica em um ambiente de trabalho
adequado ou plenamente adaptado e acolhedor, que verdadeiramente valorize as contribuições
individuais e promova a igualdade de oportunidades para todos.
A integração de profissionais com autismo no mercado da TI tem mostrado tanto
avanços significativos quanto desafios persistentes. Dados apresentados pelo Canal Autismo
(2024, p. 3), revelam que a empregabilidade de indivíduos com autismo em setores tecnológicos
tem aumentado, refletindo uma crescente conscientização e esforços de inclusão por parte de
empresas líderes no setor. No entanto, a taxa de emprego para esses indivíduos ainda permanece
relativamente baixa em comparação com a população em geral, destacando a necessidade de
estratégias mais eficazes e abrangentes para a inclusão.
Segundo Assis & Freitas (2014, apud Basto & Cepellos, 2023), a inserção de pessoas
com deficiência em organizações de todos os portes e segmentos é viável, mas requer um
constante investimento em reflexão e informação sobre as deficiências. Os autores ressaltam
que essa abordagem pode contribuir significativamente para a redução do preconceito e da
exclusão social.
No entanto, a inclusão de pessoas com autismo no mercado de trabalho enfrenta
desafios, como destacado por Leopoldino & Coelho (2018, apud Basto & Cepellos, 2023). A
5
Pouco se conhece sobre o conceito de adequação razoável. Por essa falha, muitas E é por desconhecimento que
muitas empresas deixam de incluir a diversidade (exceto as que são exigidas a cumprir cotas) elas entendem que
precisam promover alterações em seu espaço físico ou virtual que podem afetar a sua produtividade. Mesmo as
que precisam ofertar vagas, tendem aderir ao processo incersivo, não inclusivo e até preferir pagar multas ou apoiar
programas sociais fora do ambiente de trabalho.
149
maioria das organizações brasileiras não oferece as condições mínimas necessárias para a
inclusão desses profissionais em seus quadros de funcionários. Os autores sugerem que o
processo inclusivo pode ser facilitado, embora com algumas dificuldades, por meio de quatro
atividades: preparação dos indivíduos, encaminhamento para o mercado, adaptação do
ambiente de trabalho e acompanhamento do processo.
Entre as principais barreiras para esse processo estão a falta de suporte no ambiente de
trabalho, a oferta de vagas com baixa qualidade e a falta de preparo vocacional das pessoas com
autismo, além da ineficácia das cotas para deficientes. No entanto, essas barreiras podem ser
mitigadas ao explorar as potencialidades desses profissionais, que muitas vezes incluem
habilidades como a memorização de detalhes, o foco na conclusão de tarefas e o cumprimento
das regras estabelecidas no trabalho, além da facilidade na execução de funções repetitivas
(ibid, 2023).
Os avanços incluem o reconhecimento de habilidades específicas que muitos indivíduos
com autismo trazem para o ambiente de trabalho, como atenção excepcional aos detalhes e
habilidades analíticas avançadas. Essas habilidades são altamente valorizadas em áreas como
desenvolvimento de software, teste de sistemas e segurança cibernética. Por outro lado, os
desafios incluem a necessidade de adaptar o ambiente de trabalho para ser mais acolhedor para
pessoas com sensibilidades sensoriais ou necessidades de comunicação diferenciadas, e a
lacuna existente na formação e preparação profissional para esse mercado específico.
2.5. MUDANÇA ASSISTIDA
As fases da mudança foram introduzidas por Kurt Lewin (1947), psicólogo social. Seu modelo
de mudança organizacional consiste em três etapas fundamentais:
Descongelamento (Unfreeze): Nesta fase, é crucial romper com o padrão atual de
comportamento, conhecido como status quo. Isso implica abandonar práticas antigas para abrir
espaço para novas ideias e abordagens. Para efetivar esse descongelamento, é essencial
determinar a necessidade de mudança, assegurar o apoio da equipe de gestão e criar uma
conscientização sobre a necessidade e os benefícios da mudança.
Mudança (Change): Durante esta etapa, ocorre a implementação efetiva da mudança.
Comunicação regular, esclarecimento de dúvidas e preocupações, delegação de
responsabilidades e envolvimento ativo das pessoas nos processos são aspectos fundamentais.
150
É essencial manter uma comunicação clara sobre o planejamento da mudança, seus benefícios
e impactos, bem como eliminar rumores e incertezas.
Recongelamento (Refreeze): Aqui, as mudanças começam a se enraizar na cultura
organizacional. Identificar facilitadores e opositores, desenvolver estratégias de sustentação da
mudança e fornecer treinamento contínuo são aspectos essenciais. Liderança forte,
reconhecimento e recompensa, feedback eficaz e adaptação da estrutura organizacional são
fundamentais para consolidar e manter a mudança.
O modelo de Lewin destaca a importância de preparar as pessoas para a mudança antes
de implementá-la, enfatizando a necessidade de uma abordagem cuidadosa e bem planejada
em todas as etapas do processo.
2.6. MERCADO, DIVERSIDADE E VIESES INCONSCIENTES
A diversidade é fundamental no ambiente de trabalho, não apenas por sua importância
estratégica e ética, mas também para enfrentar desafios complexos como os vieses
inconscientes (Tatli & Özbilgin, 2009, citados por Silveira, Alberton & Ghedinit, 2023). Esses
vieses, muitas vezes não percebidos, podem influenciar negativamente a inclusão efetiva no
local de trabalho. A conscientização e a implementação de programas eficazes de Diversidade
e Inclusão (D&I) são essenciais para promover um ambiente mais justo e equitativo,
minimizando os efeitos negativos do preconceito e maximizando o potencial de todos os
funcionários.
As estratégias de D&I estão evoluindo em direção a uma liderança inclusiva
e engajada, e o tema faz parte dos discursos e das responsabilidades da alta
liderança, em resposta a um mercado que exige transparência nas ações e nos
dados. A competição pela atração dos melhores profissionais e pela reputação
das empresas perante o mercado torna os programas de D&I das Big Four
atrativos, devido aos benefícios oferecidos, que se concentram principalmente
na flexibilidade, na promoção de um ambiente de trabalho inclusivo e no
desenvolvimento de uma liderança autêntica, que resulta em senso de
pertencimento, aceitação e “liberdade para ser como quiser (Ibid p. 433).
151
2.7. CASOS DE SUCESSO NA CONTRATAÇÃO DE NEURODIVERSIDADE
Microsoft:
Desde 2015, o programa de contratação inclusiva da Microsoft integrou mais de 150
pessoas com autismo, destacando-se pela capacidade desses profissionais em detalhismo e
análise. O maior impacto observado foi a transformação cultural dentro da empresa, com um
aumento significativo no interesse dos funcionários em treinamentos para promover a inclusão.
SAP Autism at Work:
Lançado pela SAP, esse programa tem um profundo impacto no processo de tomada de
decisões da empresa, evidenciando o valor da diversidade cognitiva. Em abril de 2024, a SAP
expandiu esse programa, visando melhorar os resultados financeiros e as taxas de emprego
para pessoas no espectro autista, mostrando a eficácia de suporte e adaptação no local de
trabalho.
Caixa Econômica Federal:
Desde 2008, a Caixa tem publicado seu Relatório de Sustentabilidade, destacando
iniciativas específicas para autistas, como terapias especializadas e a criação de canais de
comunicação exclusivos para empregados com deficiência, demonstrando um
comprometimento com a inclusão no ambiente bancário brasileiro.
Specialisterne:
Com presença global, a Specialisterne tem como objetivo criar um milhão de empregos
para pessoas com autismo. No Brasil, a organização fornece formação e consultoria sobre
neurodiversidade, ampliando as oportunidades de emprego em TI e outras áreas, através de
parcerias estratégicas com empresas locais.
2.8. POSSIBILIDADES TECNOLÓGICAS
Design inclusivo, design universal, design para todos e acessibilidade: Compreendendo as
diferenças.
O design inclusivo está diretamente ligado a três outros conceitos que compartilham o
objetivo de eliminar barreiras: acessibilidade, design universal e design para todos. A
acessibilidade tem um escopo mais específico, orientado à concepção de produtos para que
pessoas com deficiência possam utilizá-los e desfrutá-los tanto quanto pessoas sem deficiência.
Ela representa o padrão mínimo em termos de design inclusivo e universal.
152
Podemos dizer que tanto o design inclusivo quanto o design universal visam garantir
que um design seja utilizável e compreensível para o maior número possível de pessoas. A
diferença reside na abordagem adotada pelos designers. O design universal opta por uma
solução única, na qual todos os usuários utilizam o mesmo produto, sem necessidade de
especialização.
A acessibilidade é um atributo essencial ao design inclusivo e universal. Embora
atendam a uma ampla gama de usuários, se por um lado o design universal busca uma solução
única para abranger a todos, o design inclusivo visa alcançar a mesma meta por meio de
adaptações múltiplas.
É o caso da acessibilidade digital, que além de englobar deficiências motoras e
sensoriais, também deve se preocupar, na mesma intensidade, com as deficiências ocultas e
neurodivergentes.
A tecnologia é de grande importância para pessoas com autismo, assim como para seus
pais. Pichiliani (2019) afirma que pessoas autistas têm grande facilidade e interesse por
computadores, tablets e smartphones, tendo maior facilidade com dispositivos touchscreen.
Por esta razão, soluções computacionais são grandes aliadas das pessoas com autismo no
desenvolvimento de habilidades e no auxílio com as atividades de vida diária.
2.9. PRINCÍPIOS DO DESIGN INCLUSIVO
O design inclusivo e o design universal são abordagens fundamentais que visam
eliminar barreiras e garantir que produtos e ambientes sejam acessíveis e usáveis pelo maior
número possível de pessoas, independente de suas capacidades físicas ou cognitivas. Enquanto
o design universal busca soluções únicas que sirvam a todos, o design inclusivo adapta-se para
atender às necessidades variadas através de múltiplas soluções, promovendo a acessibilidade
de forma mais personalizada.
Tabela 1. Adaptado do Center for Universal Design (1997), UE Carolina do Norte.
153
As melhores práticas de design inclusivo envolvem compreender as diversas
necessidades dos usuários e criar soluções acessíveis. Observe:
A Microsoft se orienta por apenas três princípios que considera fundamentais para o
design inclusivo, são eles:
1. Reconheça a exclusão: É crucial identificar e abordar os preconceitos que podem levar à
exclusão involuntária de certos grupos. A pesquisa do usuário e os testes práticos são
essenciais para compreender e superar essas barreiras.
2. Aprenda com a diversidade: Incluir uma variedade de perspectivas desde o início do
processo de design enriquece nossa compreensão e nos ajuda a criar produtos mais
inclusivos.
3. Resolva para um, estenda para muitos: Ao projetar soluções para atender às necessidades
de um grupo específico, devemos buscar oportunidades para ampliar seu impacto e
beneficiar uma variedade de usuários.
O design inclusivo melhora a experiência do usuário, garantindo que todos,
independentemente de suas capacidades, possam navegar pelos produtos digitais de maneira
eficaz e satisfatória. Além de proporcionar uma vantagem competitiva ao posicionar as marcas
como líderes em acessibilidade e inclusão, ele também ajuda a cumprir os padrões legais de
Fonte: Fundação de Design de Interação, CC BY-SA 4.0.
Fonte: Fundação de Design de Interação, CC BY-SA 4.0.
Tabela 2. Práticas de design inclusivo.
154
acessibilidade, evitando problemas jurídicos e demonstrando o compromisso das empresas
com a acessibilidade.
2.10. POR UM MODELO DE MUDANÇA DE DESIGN INCLUSIVO
Mudanças repentinas podem levar a resistências e fricções dentro de uma organização. E
modelos de mudança são essenciais para prepará-la, ao invés de simplesmente impô-la. Em seu
livro Leading Change, Kotter (1996) alerta sobre os perigos de não preparar adequadamente
uma organização para a mudança, entre eles, "[...] os perigos de não preparar adequadamente
uma organização para a mudança" (Kotter, 1996 apud Gerolamo, 2019 p. 41). Para Kotter,
institucionalizar uma mudança é garantir que ela seja duradoura e mantida pelas gerações
futuras.
Por essa razão, estruturar um modelo de mudança de design inclusivo para empresas de TI que
desejam melhorar a inclusão de profissionais com autismo, é uma estratégia em prol da
inclusão.
2.11. O VALOR DAS TECNOLOGIAS DE USO ASSISTIVO
Motor de autonomia para as pessoas com deficiência, as tecnologias assistivas
desempenham um papel fundamental no apoio à inclusão de pessoas com autismo no mercado
de trabalho em geral. Seu conceito - proposto pelo Comitê de Ajudas Técnicas (CAT) da
Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH, 2009) - estabelece que:
Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característica
interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias,
práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à
atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou
mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de
vida e inclusão social. (SEDH, 2009 p. 9).
De acordo com o Canal Autismo (2024, p. 5), softwares e ferramentas específicas
projetadas para melhorar a acessibilidade no ambiente de trabalho, como por exemplo, as que
utilizam interfaces gráficas intuitivas, podem ajudar autistas a gerenciar melhor suas
responsabilidades diárias e prazos.
Tecnologias da informação e comunicações participam do desenvolvimento inclusivo e
sustentável da pessoa autista, à medida que reduzem ambiguidades linguísticas e são
155
especialmente úteis para melhorar a interação social no ambiente de trabalho, tornando a
comunicação mais acessível para aqueles com dificuldades na interpretação de linguagem não
literal ou de sugestões sociais subtis.
2.12. IMPACTO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA) NA INCLUSÃO DE
PESSOAS COM AUTISMO NO SETOR DE TECNOLOGIA
A IA está revolucionando a inclusão de profissionais com autismo no setor de TI, como
destacado na publicação IstoÉ Dinheiro (2024, p. 5), que nos mostra como ela está sendo
empregada para desenvolver soluções que personalizam o ambiente de trabalho, adaptando-se
às necessidades específicas de cada indivíduo. Isso inclui desde sistemas que ajustam
Tabela 3. Usos assistivos de IA, RV e RA.
Fonte: Elaborada pelos autores.
156
automaticamente a iluminação e o som do espaço de trabalho até softwares que oferecem
assistência na gestão do tempo e priorização de tarefas, observe:
O uso da IA, assim como da realidade virtual (RV) e da realidade aumentada (RA) tem
se mostrado muito promissor no apoio à inclusão de pessoas com autismo no mercado de
trabalho. Essas tecnologias podem ser aplicadas de várias maneiras para ajudar a superar
barreiras de comunicação, treinamento, interação social e adaptação ao ambiente de trabalho.
Aqui estão alguns exemplos específicos de como essas tecnologias podem ser utilizadas:
2.13. MODELO DE RECOMENDAÇÕES
Após revisar o Guia de inclusão de autistas no mercado de trabalho para organizações,
construímos um dodecálogo com base no modelo de recomendações Aprend.AI: um modelo
ético de mudança para o uso de IAGs como ferramenta de ensino superior. Nele, Fonseca &
Campiglia (2024) dividem as recomendações em três categorias: “incentivar”, “alertar e
“evitar”. A ideia é que nesse artigo, essa estrutura ajude a orientar a implementação de um
ambiente de trabalho mais inclusivo para pessoas autistas, particularmente no setor de TI.
Incentivar:
A diversidade de pensamento: Promover a inclusão de autistas para enriquecer o ambiente
de trabalho com diferentes perspectivas e abordagens inovadoras.
Oportunidades de desenvolvimento profissional: Oferecer treinamento e oportunidades de
desenvolvimento que respeitem os interesses e hiperfocos dos autistas.
A adoção de tecnologias assistivas: Implementar o uso de ferramentas e tecnologias assistivas
pode auxiliar autistas a maximizar suas habilidades no trabalho.
A valorização das habilidades únicas: Reconhecer e utilizar as habilidades especiais dos
autistas, como atenção ao detalhe e foco intensivo.
Alertar:
Para a acessibilidade cognitiva e sensorial: Com isso assegurar que o local de trabalho esteja
adaptado para atender às necessidades sensoriais e cognitivas dos autistas.
Para a necessidade de uma comunicação clara e direta: Utilizar uma comunicação direta e
literal, evitando metáforas e expressões que possam ser mal interpretadas.
Para a maneira de oferecer feedback: De maneira equilibrada e respeitosa, com foco em
pontos fortes e áreas para desenvolvimento.
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Para a previsibilidade e estrutura: Dois atributos essenciais para manter uma rotina de
trabalho clara e estruturada que possa reduzir a ansiedade e aumentar a produtividade dos
autistas.
Evitar:
O tokenismo: Garantir que as iniciativas de diversidade não sejam superficiais e que haja um
comprometimento genuíno com a inclusão efetiva.
A imposição da “camuflagem social”: Ou seja, evitar pressionar autistas para que ocultem
suas características com o intuito de enquadrá-los em normas neuronormativas.
Generalizações sobre habilidades: Não presumir que todos os autistas possuem as mesmas
habilidades ou desafios.
Ambientes de trabalho caóticos e estressantes: Importante minimizar ruídos, interrupções
frequentes e outros estímulos que podem ser desafiadores para autistas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A integração de profissionais com autismo no mercado de TI está se mostrando
promissora, embora ainda enfrente desafios persistentes. Estatísticas recentes indicam que 85%
dos adultos autistas permanecem desempregados, revelando uma lacuna significativa na
inclusão desses indivíduos em ambientes profissionais. Ao mesmo tempo, o setor de TI oferece
oportunidades únicas, que muitas funções nesse campo requerem características como
atenção ao detalhe, pensamento lógico e foco prolongado, que costumam ser pontos fortes de
muitos autistas.
Por outro lado, a simples inserção de pessoas autistas nas organizações não configura
inclusão. A inclusão verdadeira requer uma abordagem mais ampla e sistemática, adaptando o
ambiente de trabalho e os processos para acomodar as necessidades e habilidades dos
profissionais neurodivergentes. Isso envolve ajustes no recrutamento, formação de equipes e
uso de tecnologias assistivas.
Este artigo explora como um modelo de mudança de design inclusivo pode ajudar as
organizações a se tornarem mais inclusivas para os autistas no mercado de TI. Através da
análise das principais barreiras e oportunidades, fornecemos recomendações práticas para criar
um ambiente de trabalho que valorize e aproveite a diversidade cognitiva.
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5. REFERÊNCIAS
Andrade, M. M., Gruetzmacher, F. E., & Leite, G. H. (2024). Pequeno guia para a inclusão de
autistas no mercado de trabalho para organizações. https://sites.google.com/view/autistas-
trabalho .
Autismo em Dia. (2024). Autismo no mercado de trabalho: desafios e oportunidades.
https://www.autismoemdia.com.br/blog/autismo-no-mercado-de-trabalho-desafios-e-
oportunidades.
Autismo em Dia. (2023). Símbolos do autismo: entenda os significados.
https://www.autismoemdia.com.br/blog/simbolos-do-autismo.
Assis, A. M., & Freitas, M. N. C. (2014). Estudo de caso sobre a inserção de pessoas com
deficiência numa organização de grande porte. REAd. Revista Eletrônica de Administração,
22(2), 1-15. https://doi.org/10.1590/1413-2311022201342126.
Basto, A. T. O. da S., & Cepellos, V. M. (2023). Autismo nas organizações: percepções e ações
para inclusão do ponto de vista de gestores. Cad. EBAPEBR, 21(1), e2022-0061.
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