206
SEGURANÇA ALIMENTAR, SAÚDE E BEM ESTAR NO ÂMBITO DE UMA REDE
ALIMENTAR ALTERNATIVA
Carla Mota
1
Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM) - Brasil
Gercton Coitinho
2
Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM) - Brasil
Maria João Palma
3
Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM) - Brasil
RESUMO
Esta tese investiga as Redes Alimentares Alternativas (AFNs) urbanas a partir do diálogo da
literatura com o estudo de caso da Associação de Agricultura de Campinas e Região (ANC), uma
AFN urbana brasileira. A investigação busca responder se ao contribuir para mitigar a degradação
ambiental causada pela produção agroindustrial, a ANC constitui-se em resposta ao Antropoceno
em nível local. Dentre os objetivos estão a identificação e a análise dos obstáculos e benefícios
das AFNs urbanas. A metodologia teve como campo teórico a discussão sobre a degradação
ambiental e no campo empírico, pesquisas qualitativas com integrantes da ANC, seguidas da
discussão dos resultados. O trabalho conclui que a ANC precisa compreender o contexto
alimentar hegemônico em que ela se insere, habilitando-se, então a disseminar valores e práticas
que favoreçam uma profunda revisão paradigmática.
Palavras-chave: antropoceno; redes alimentares alternativas; ODS; sustentabilidade
ambiental.
ABSTRACT
This thesis investigates the urban Alternative Food Networks (AFNs) from the dialogue of the
literature with the case study of the Association of Agriculture of Campinas and Region (ANC),
a Brazilian urban AFN. The investigation seeks to answer whether ANC can be a response to
1
Doutora em Ciência da Informação IBICT-PPGCI/ECO-UFRJ. Centro Universitário Augusto Motta.
carlamota@souunisuam.com.br
2
Mestre em Desenvolvimento Local pela UNISUAM. Centro Universitário Augusto Motta.
gercton.coitinho@unisuam.edu.br
3
Mestre em Desenvolvimento Local pela UNISUAM. Centro Universitário Augusto Motta.
mjoao@unisuam.edu.br
207
the Anthropocene at local level by contributing to mitigating the environmental degradation
caused by agro-industrial production. Objectives are the identification and the analysis of the
obstacles and benefits of urban AFNs. The methodology had as theoretical field the discussion
about environmental degradation and in the empirical field, qualitative research with members
of the ANC, followed by the discussion of the results. The work concludes that the ANC needs
to understand the hegemonic food context in which it is inserted, enabling it to disseminate
values and practices that enables a deep paradigmatic review.
Keywords: anthropocene; alternative food networks; ODS; environmental sustainability.
1. INTRODUÇÃO
Este trabalho tem como objeto de estudo as Redes Alimentares Alternativas (AFNs)
urbanas, no âmbito do território brasileiro, enquanto possível resposta para o enfrentamento do
atual cenário de degradação ambiental. Para tal, realiza o estudo de caso da Associação de
Agricultura Natural de Campinas e Região (ANC), verificando qual a sua contribuição para
aumentar a segurança alimentar da região apenas um dos Objetivos do Desenvolvimento
Sustentável que compõem a Agenda 2030 constituindo-se em uma possível saída às ameaças
que o cenário antropocênico impõe à vida humana sobre o planeta. O termo Antropoceno
designa um momento da história “em que o Homo Sapiens se tornou o equivalente a uma força
geológica capaz de modificar os parâmetros biofísicos do planeta [...]”. (ISSBERNER, LÉNA,
2018, p.201). Mudanças climáticas mundiais, deslocando ciclos globais do clima, poluição
generalizada, precipitação radioativa, acúmulo de plástico, invasões e extinção em massa de
espécies, são apenas alguns dos muitos indicadores que deixam registros nas rochas.
4
(ELLIS,
2018; ISSBERNER; LÉNA, 2018; STEFFEN et al., 2016; WATERS et al., 2016).
Ao longo de sua existência, cada país vem contribuindo de forma particular para a
consolidação e aprofundamento do cenário antropocênico. No Brasil, o crescimento do
agronegócio tem sido um importante contribuinte para a degradação socioambiental por reunir
elementos propulsores para este fenômeno, como o aumento de emissão de gases de efeito
estufa (GEE); a contaminação de alimentos e recursos naturais por meio do uso crescente de
agrotóxicos e fertilizantes químicos; a simplificação dos agroecossistemas e consequente
4
Cf. http://science.sciencemag.org/content /351/6269/aad2622; e website do Anthopocene Working Group
http://quaternary.stratigraphy.org/working-groups/anthropocene.
208
diminuição da biodiversidade. Além disso, muitas vezes a expansão do agronegócio se dá pela
incorporação de terras de pequenos produtores que nem sempre conseguem resistir à pressão
dos grandes, o que acarreta a perda da identidade e cultura das comunidades locais, que são
forçadas a migrarem, em geral, para a periferia dos grandes centros urbanos. (ISSBERNER;
LÉNA, 2018; WARNER et al., 2010). Estes são fenômenos que extravasam os marcadores
geológicos, e que contribuem para o aprofundamento do Antropoceno, pois têm relevante
impacto sobre a vida humana e o planeta ao levarem ao aumento do êxodo rural e da pobreza.
Como resultado, intensificam-se o número de ciclos migratórios populacionais, levando à
aceleração da exploração de recursos naturais e à alteração de espécies em uma escala maior
que a natureza consegue restaurar nos novos locais de fixação destas comunidades. (WARNER
et al., 2010).
Ao buscar desenfreadamente o crescimento econômico baseado na utilização intensiva
de recursos naturais, o Brasil também sofre o aprofundamento dos efeitos adversos da exclusão
social perpetuada pela desigualdade econômica. O lixo, as inundações, a seca e a contaminação
de solos e fontes d’água afetam primeiro e mais intensivamente a quem tem menos recursos
financeiros para buscar alternativas ou impedir que sejam assolados por catástrofes. Gudynas
(2014) observa que a morosidade e negligência do Estado em lidar com estes desafios acaba
por levar à mobilização da sociedade civil em direção a soluções alternativas ao
desenvolvimento. Desta feita, cresce o contingente de cidadãos que se mobiliza em nível global
para gerar saídas criativas em direção a um maior equilíbrio entre o uso dos recursos do planeta
e o “desenvolvimento de sociedades até o nível da obtenção de bem-estar social e qualidade de
vida”, tais como são as iniciativas voltadas para “a economia social e solidária, [...] as
agriculturas e pecuárias familiares e biológicas” (MOTA, 2015, p.30; VEIGA; ISSBERNER,
2012, p.130). Entre estas se encontram os movimentos de base ecológica, dos quais as Redes
Alimentares Alternativas (Alternative Food Networks ou AFNs) fazem parte. No presente
trabalho, objetivando uma visão uniformizadora, o termo base ecológica é adotado de forma a
abarcar todos os tipos de atividades voltadas para a produção de alimentos livres de
agroquímicos e/ou transgênicos, circunscritos a sistemas que se consideram socialmente justos.
A institucionalização dos movimentos de base ecológica e das Redes Alimentares
Alternativas aconteceu na França nos anos de 1980, apesar de os registros das primeiras
209
iniciativas remontarem à década de 1960 na Europa
5
, enquanto no Brasil seu início data dos
anos de 1990. As redes são pautadas por princípios de confiança, equidade e novas relações
sociais entre produtores e consumidores que contribuem para a emergência de uma democracia
alimentar fundada sobre a racionalidade socioambiental (BRANDENBURG, 2002 apud
DAROLT et al., 2015). Nestas, a produção em menor escala, apoiada na valorização da
produção local e do que é nativo se distanciam da dinâmica da escassez, do consumismo e do
desperdício, que regem a economia neoliberal e a lógica desenvolvimentista.
A visão de Brandenburg (2002) e de Darolt (2015) sugere que as Redes Alimentares
Alternativas exercem um papel de resistência e de transformação ideológica do contexto social
ao buscarem aproximar indivíduos antes localizados nas extremidades da cadeia produtiva do
modelo de agricultura industrial e convencional. No entanto, considerando a diversidade de
atores que integram estas redes e as condicionantes que regem sua interação, é possível que
sejam subsumidos ideologicamente, mesmo sem que se apercebam disto. A eventual adoção de
uma crescente redução de custos e maximização dos lucros, por exemplo, poderia levar ainda
a um afrouxamento das regras adotadas por estas redes e à adoção de práticas de mercado que
visem à competição e à exclusão de concorrentes. Outro ponto é que a transmissão de
conhecimento entre as partes pode não ser efetiva quanto ao propósito de promover os valores
e visão da rede e a sua disseminação para além de seu núcleo, deixando de contribuir para uma
efetiva revisão paradigmática, do tipo que é necessária como resposta ao Antropoceno.
Para compreender o potencial transformador das AFNs enquanto disseminadoras de
práticas, princípios e conhecimentos, o problema de pesquisa deste trabalho foi:
Qual o papel das Redes Alimentares Alternativas urbanas no enfrentamento do
Antropoceno no Brasil em meio a um regime de produção alimentar hegemônico?
2. OBJETIVOS
Considerando a oferta de alimentos ambientalmente sustentáveis e saudáveis para uma
população mundial crescente num cenário de deterioração característica do Antropoceno, o
objetivo principal deste trabalho é identificar e analisar os obstáculos e benefícios das Redes
Alimentares Alternativas (AFNs) urbanas para o enfrentamento desses problemas por meio da
5
Cf. Community Supported Agriculture, 2006. Publicação da ATTRA (Serviço Nacional de Informação sobre
Agricultura Sustentável) e NCAT (Centro Nacional de Tecnologia Adequada), ambos ligados ao Departamento de
Agricultura dos Estados Unidos. Disponível em: www.attra.ncat.org/attra-pub/csa.html.
210
articulação local de seus atores e a disseminação de informação, sendo a mobilização de
produtores e a ampliação do mercado consumidor os desafios maiores para a criação e
manutenção das AFNs. Para tal: investigou-se a relação do Antropoceno, seus efeitos e
características, com a produção e oferta de alimentos no âmbito do Brasil; e identificou-se, por
meio de estudo de caso, se o modelo regulatório e de funcionamento de uma AFN urbana
brasileira lhe confere autonomia e autossuficiência para replicar seu modelo sem a ajuda do
Estado, investigando como cresce, se desenvolve e se organiza.
3. ESTUDO DE CASO DA ASSOCIAÇÃO DE AGRICULTURA NATURAL DE
CAMPINAS E REGIÃO - ANC
Esta seção apresenta o estudo de caso da ANC, uma AFN localizada na cidade de mesmo
nome, no estado brasileiro de São Paulo. Realizado por meio de estudo de campo, e de natureza
exploratória, este estudo de caso buscou identificar e classificar as práticas da Associação para
verificar o tipo de contribuição que ela oferece no enfrentamento da degradação ambiental e
seus efeitos, dentre eles a promoção da segurança alimentar no contexto do Antropoceno.
Quanto aos critérios de seleção da amostra, é imprescindível reforçar que a ANC não tem
representatividade quantitativa amostral e não deve ser considerada estatisticamente
representativa do universo das AFNs.
O estudo de caso foi realizado nos dias 22, 23 e 24 de novembro de 2019 em cinco
diferentes feiras de produtos orgânicos e agroecológicos que têm participação da ANC, ou são
administradas por ela, na cidade de Campinas. As feiras acontecem semanalmente e contam
com a participação massiva dos produtores associados à rede. Nelas foram entrevistados 17
expositores, todos agricultores de alimentos de base ecológica que comercializam sua
produção. Dentre os 107 associados cadastrados na ANC, encontram-se propriedades que se
repetem, pois são compartilhadas por produtores de um mesmo núcleo familiar ou outras
composições, como os chamados meeiros (fato que foi levantando durante a entrevista). Estes
são contratados pelos produtores de origem para juntos atuarem na produção e compartilharem
lucros sob acordos de cessão de terra e recursos produtivos para tal finalidade. Considerando
as duplicidades advindas desta dinâmica, há no total 22 propriedades cadastradas na ANC, das
quais a amostra conseguiu alcançar 77,3% (17) de seus proprietários e/ou representantes (desde
que estes fossem também associados).
211
As entrevistas do estudo foram realizadas segundo o cronograma e a ordem de visita às
feiras apresentados no Quadro 1.
Quadro 1. Locais e datas das entrevistas de campo nas feiras.
Fonte: MOTA, 2020.
Quanto às entrevistas, elas foram do tipo semiestruturadas, realizadas com a técnica de
observação participante. É importante ressaltar que houve uma abordagem prévia aos
produtores por parte da direção da ANC, esclarecendo os objetivos do trabalho e pedindo a sua
colaboração no sentido de acolher a pesquisadora e contribuir com o levantamento, e isto
certamente ajudou a reduzir eventuais resistências. uma cultura de colaboração da ANC e
seus associados para esta finalidade, em função da proximidade geográfica com institutos de
pesquisa como Embrapa, Unicamp e PUC-Campinas, os quais realizaram atividades com a
rede. As entrevistas cobriram 100% das unidades amostrais que integravam as feiras, depois de
descartadas as duplicidades, ou seja, os produtores que haviam sido entrevistados em
alguma(s) das feiras visitadas anteriormente.
O número de cadeias curtas ou circuitos curtos existentes no Brasil ajuda a dimensionar
o tamanho do mercado de produtos de base ecológica. A plataforma de feiras orgânicas no
Brasil
6
do IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) mostra que há 890 iniciativas
cadastradas nesta base digital, distribuídas nas cinco regiões brasileiras. Destas, 785 são feiras
orgânicas ou agroecológicas, das quais 275 estão concentradas na região Sudeste. Outras
regiões apresentam números próximos, tais como Sul, com 211 feiras, e Nordeste, 198. Centro-
6
Cf. A busca de arranjos produtivos de orgânicos e consumo responsável pode ser feita na plataforma
https://feirasorganicas.org.br.
212
Oeste e Norte, apresentam 63 e 37 registros desta atividade, respectivamente. As outras
iniciativas registradas na plataforma e que integram o número total de iniciativas, junto com as
feiras em todo o país, são os comércios de parceiros de orgânicos (40 registros) e os grupos de
comércio responsável (66 registros).
A maioria das feiras orgânicas ou agroecológicas concentra-se na região Sudeste, com
São Paulo liderando os resultados, apresentando 146 feiras dentre os 275 registros para todo a
o estado. O Rio de Janeiro, segundo colocado no ranking, tem 63 feiras, enquanto Minas Gerais
e Espírito Santo têm, respectivamente, 55 e 20 feiras, segundo a base de dados. Campinas, a
segunda cidade com maior participação no PIB Nacional, possui 15 feiras deste tipo. A ANC,
Associação Nacional de Agricultura Natural de Campinas e Região, por sua vez, realiza 5 das
15 feiras de produtos orgânicos e agroecológicos de Campinas, e conta com associados
participando de outras na cidade e seu entorno. A rede foi escolhida como amostra de
conveniência e a sua seleção obedeceu aos critérios: tempo de experiência da rede no trabalho
com produtos de base ecológica; a sua prioridade para a comercialização em circuitos curtos; a
sua presença/atuação no perímetro urbano; a sua capilaridade; o seu reconhecimento local
(reputação); o grau de conveniência (acessibilidade).
As feiras de orgânicos que têm a participação da ANC foram escolhidas como o local
para a realização do levantamento de campo por concentrarem vários produtores em um mesmo
espaço. Assim, otimizou-se o tempo de pesquisa, restringiu-se a necessidade de deslocamentos,
o que possibilitou também observar o comportamento dos produtores em ação no momento da
venda e de como se relacionavam com os clientes.
A entrevista foi do tipo semi-estruturada, em que as questões eram apresentadas aos
produtores de forma contextualizada sempre que necessário, buscando entender em
profundidade a visão de cada entrevistado, relativizando-a em relação a seu nível de instrução
formal e background.
A seleção do caso a ser estudado foi realizada primeiramente por meio de cadastros de
AFNs em fontes secundárias e redes digitais, e de pesquisa exploratória com especialistas e
integrantes da cadeia de produtos de base ecológica, tais como integrantes ou organizadores de
circuitos curtos (feiras de produtos ecológicos, por exemplo), representantes de entidades,
organismos gestores ou afins, buscando obter informações sobre aquelas que teriam maior valor
de pesquisa sob os critérios pré-definidos para esta etapa. Uma dificuldade encontrada foi a
213
limitação do cadastro disponibilizado no site do MAPA. A integridade e escassez de dados
sobre a produção orgânica no país é apontada por especialistas e estudos realizados: “[...]
infelizmente, alguns países com áreas orgânicas muito grandes, como Brasil e Índia, tinham
pouca ou nenhuma informação sobre seu uso da terra. [...]” (IFOAM, 2019, p.28)
7
. Por esta
razão, a lista de Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânica, OPACs,
que integra a Central de Inteligência de Orgânicos ligada à Sociedade Nacional de Agricultura,
somada a entrevistas com atores-chaves ligados ao mercado de orgânicos no Brasil, foram as
fontes usadas para a seleção das redes elegíveis para o estudo de caso.
4. CARACTERIZAÇÃO DA ANC
A ANC está situada na cidade de Campinas, em um município de mesmo nome, no
estado brasileiro de São Paulo, no distrito de Sousas. A cidade de Campinas fica a 100km da
cidade de São Paulo, e figura como a cidade com o segundo maior PIB do país (dentre as que
não são capitais), com IDHM de 0,792%, classificado como alto (ATLAS BRASIL, 2020)
8
.
Seu município tem uma área de 794,6 km², dos quais 407,5 km² ainda são rural. No último
censo, em 2010, sua população contava com 1.080.113 pessoas, avançando para 1.204.073
pessoas na estimativa de 2019 (IBGE, 2019)
9
.
Criada em 1991, a ANC é uma ONG (organização não governamental sem fins
lucrativos) que então visava a comercialização de produtos de base ecológica na região de
Campinas (ANC, 2020)
10
. Ao longo dos anos, a ANC tornou-se uma conhecida certificadora
de produtos orgânicos de Campinas e região sob a modalidade do Sistema Participativo de
Garantia (SPG), uma modalidade coletiva de acreditação, com base no controle social
cooperativo. Hoje estende sua atuação para demais cidades do entorno de Campinas, contando
com 107 associados
11
, que estendem seu modelo de gestão participativa para outras redes, como
a de produtores de café integrantes da Associação Agroecológica de Ouro Fino (AAOF) no sul
do estado de Minas Gerais
12
. As demais atividades que desenvolvem são as consultorias
agronômicas e ambientais, voltadas para a produção orgânica, além de cursos e palestras
13
.
7
Cf. https://shop.fibl.org/CHen/mwdownloads/download/link/id/1202/?ref=1.
8
Cf. http://atlasbrasil.org.br/2013/pt/perfil_rm/campinas.
9
Cf. https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/sp/campinas.html.
10
Cf. http://anc.org.br/.
11
Número levantado por época desta pesquisa, também disponível em:
12
http://aaof.com.br/sobre/
13
Cf. Anexo IV.
214
O ingresso no OPAC da ANC requer que o produtor passe a integrar um de seus
Sistemas Participativos de Garantia existente ou que desenvolva um novo grupo, dando início
a outro SPG que deverá ser cadastrado no OPAC da ANC. Para tal, tem de contar com o mínimo
de três membros participantes, os quais são submetidos a avaliação da conformidade. (ANC,
2020).
A proximidade geográfica entre as unidades é o principal critério para a reunião dos
membros ao se constituírem sob um SPG específico. Uma vez constituído, o SPG elege um
coordenador que o representará nas reuniões do OPAC da rede ANC.
Dentre os objetivos da ANC estão: “estimular o aprimoramento e maior eficiência da
produção agroecológica [...]”; e “fomentar o desenvolvimento da Agroecologia e a
racionalização das explorações agropecuárias, visando alcançar maiores níveis
de sustentabilidade” e, melhorar as condições de vida de seus associados [...]”. Descrita como
uma de suas atividades principais, também está a certificação orgânica (site da ANC, 2020).
Estas asserções denotam que a visão de mundo da ANC é integrada por valores voltados para
a preservação ambiental e a redução das desigualdades socioambientais. A pesquisa de campo
confirmou esta inclinação, além do caráter inclusivo da rede, que busca acolher os pequenos
agricultores familiares vindos de realidades díspares que encontram lugar em meio a outros
produtores já consolidados e mais longevos na cadeia de orgânicos e agroecológicos.
As AFNs integram um tipo de circuito curto que tem nas feiras orgânicas e
agroecológicas um importante exemplo da capacidade de inovação deste modelo de negócio ao
diversificarem, a cada ano, as formas de fazer o produto chegar ao consumidor, o que Darolt e
outros (2016) indicam demandar cada vez mais informação qualificada para todos os atores da
cadeia produtiva. Saber o que comprar, onde e como, além das razões que contribuam para a
decisão de compra participam deste processo. Mais uma vez a Vila Yamaguishi e a Entreverdes
surgem entre os associados da ANC como exemplos dos que multiplicam seus canais de
distribuição, em lojas próprias na internet, em lojas físicas especializadas, ou nas feiras da rede.
As atividades da rede ANC promovem a transmissão de conhecimento por meio da
socialização, em suas feiras, de atores antes afastados pelas práticas do modelo de consumo
extensivo, contribuindo para a ressignificação do alimento de base ecológica. As interações
nas feiras permitem ao consumidor gradualmente erigir juízo de valor sobre a relação entre a
215
conveniência e a qualidade dos alimentos com base nos conhecimentos que vão sendo
contruídos nas experiências de consumo junto aos agricultores da rede.
Se as feiras são espaços de reconexão de consumidores e agricultores e oportunidades
para a edificação e disseminação de uma cultura alimentar baseada em conhecimento que
contribua como resposta ao Antropoceno, a questão fundamental reside em descobrir que
conhecimentos a ANC está transmitindo ou deixando de transmitir. Se os objetivos da ANC
estão sendo alcançados, se as atividades de disseminação da produção orgânica e de estímulo à
conversão agroecológica estão sendo desenvolvidos pela rede, resta saber o que mais está no
bojo do conhecimento gerado no âmbito desta AFN e sendo disseminado por meio dos laços
que unem seus atores.
O fato de os consumidores revelarem intensiva preocupação com sua saúde poderia ser
considerado um aspecto positivo. No entanto, revela o grande fosso em que o debate ambiental
ainda se encontra, mostrando a desinformação sobre a gravidade e a abrangência do problema.
A consciência sobre o mau uso e a exploração dos recursos naturais no modelo agroindustrial
alimentar não teve lugar nas conversas entre os consumidores e os agricultores da ANC
observadas, revelando que a demanda local do mercado impulsionada pela saúde é a bússola
que norteia suas atividades de consumo.
O selo da ANC desempenha importante papel aos olhos de produtores e consumidores
da rede. Os produtores alegaram vender com mais facilidade produtos que têm selo e a maioria
o faz por ajudar que isto ajuda a ultrapassar a resistência do consumidor quanto à procedência
do produto. A multiplicação dos canais e da área de atuação de produtores como os da Vila
Yamaguishi reproduzem o modelo de negócio que estão no cerne da degradação ambiental.
Neste caso particular, parece revelar o desconhecimento sobre o que o alongamento da cadeia
significa e o tipo de disputa que estas atividades podem fomentar em um cenário extremo de
desigualdade socioambiental.
Este parece ser o maior desafio a ser enfrentado pela ANC para a longevidade de sua
autonomia e auto suficiência, pois o risco de serem subsumidos por grandes varejistas,
fenômeno em curso em outros países da Europa. Ao combinar este fato com os resultados
das entrevistas dos agricultores da ANC ao serem arguidos sobre venderem seus produtos para
grandes redes de supermercado, percebeu-se não haver entendimento da parte da maioria deles
sobre o impacto ambiental que representaria se integrarem a um circuito longo.
216
A ANC deixa de exercer seu pleno potencial de edificadora de uma cultura ambiental
em nível local. A atuação local da rede nos moldes de um circuito curto de distribuição e os
dispositivos e mecanismos de controle que adota dão efetivo suporte às atividades de produção
e comercialização, incluindo os de transmissão de conhecimento, contribuindo desta forma para
a redução da degradação ambiental no que tange à contaminação e exploração dos recursos
naturais.
A expansão das atividades de comercialização da rede, por meio de parcerias comerciais
e de pontos de distribuição diversificados, leva a ANC, na figura de seus associados, a
extravasar as fronteiras da própria cidade de origem alongando a cadeia, em uma estratégia
análoga àquela usada nos circuitos longos, com o consequente aumento das emissões de GEE
e contribuição para efeitos colaterais (se pensarmos em termos de escala, com outras redes
adotando as mesmas estratégias).
Observou-se que ainda há um espaço a ser preenchido sobre o próprio papel da rede em
escala maior. Para uma parcela expressiva dos associados, os orgânicos e agroecológicos são
principalmente um nicho de mercado a ser desenvolvido. Assim, o tipo de atuação que se faz
necessário no caso da ANC é um que além da mera ecologização da economia em que a rede
dissemine as bases da revisão paradigmática que leve ela própria a se tornar efetiva resposta ao
Antropoceno.
5. CONCLUSÃO
Este trabalho teve como ponto de partida o contexto de degradação ambiental que assola
o planeta e que tem inúmeros efeitos catastróficos reunidos sob o termo Antropoceno, o qual é
caracterizado pelo aquecimento climático causado pelas altas e históricas emissões de gases de
efeito estufa (GEE).
O estudo de caso da Associação de Agricultura Natural de Campinas e Região revela
que a lacuna de conhecimento que têm os produtores da rede ANC sobre as engrenagens que
regem o mercado alimentar - nem sempre aparentes - e reificam sua lógica de funcionamento,
são um exemplo ampliado do que acontece, em sua vivência cotidiana. Os resultados da
pesquisa de campo evidenciaram que a questão ambiental é suplantada pela busca ativa da saúde
e que isto não está vinculado ao seu nível de instrução. A ANC desempenha um importante
papel no desenvolvimento da agricultura de de base ecológica na região em que atua, e mesmo
217
para além dela, ao servir de modelo para outras redes afins. Seu sistema produtivo respeita os
ciclos da natureza, enquanto os laços criados fora e dentro da própria rede propiciam a sua
ampliação, mobilizando a produtores e consumidores e contribuindo para a transmissão de
conhecimento que permite às AFNs se constituírem em um tipo de resposta ao Antropoceno.
No entanto, para que esta resposta seja plena ao ponto de contribuir para uma revisão
paradigmática, os caminhos construídos pela ANC precisam ser ainda pavimentados com
conhecimentos que venham a se constituir em saídas efetivas à degradação ambiental a ele
associada.
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7. ANEXOS
ANEXO I. Descrição das feiras da pesquisa de campo.
Feira do Centro de Convivência Campinas
Figura 1. Vista Geral da Feira do Centro de Convivência Campinas.
Fonte: MOTA, 2020.
Feira do Centro Cultural Unicamp (Cis Guanabara)
Figura 2. Vista geral da Feira do Cis Guanabara.
MOTA: A autora, 2020.
Feira do CEASA Campinas
A Feira da ANC no CEASA acontece aos bados das 8 às 13h, tem 800 metros de
extensão, dentro do maior centro de abastecimento de alimentos convencionais da região de
Campinas, onde majoritariamente, fornecedores e distribuidores de alimentos
convencionais. Por isso é um espaço de resistância da produção agroecológica.
228
Figura 3. Vista geral da Feira Orgânica no CEASA.
Fonte: A autora, 2020.
Feira do Parque Ecológico Emílio José Salim
A ANC realiza a Feira no Parque Ecológico em Campinas mais de duas décadas,
contando com a participação de 10 produtores. A diversidade de produtos nesta feira era ainda
maior que em todas as outras visitadas.
Figura 4. Vista geral da Feira do Parque Ecológico.
Fonte: MOTA, 2020.
Feira do Parque Dom Pedro
Esta feira acontece no Shopping Dom Pedro, aos domingos, de 8 às 13h. É próxima à
entrada principal e conta com tendas, mobiliário, todos no mesmo padrão.
229
Figura 5. Vista geral da Feira do Parque Dom Pedro.
Fonte: MOTA, 2020.