“NO LIXO TAMBÉM NASCE FLOR”
COTIDIANO, VÍNCULOS E PROJETOS DE VIDA NO ENCARCERAMENTO FEMININO
Palavras-chave:
Encarceramento Feminino, Cotidiano, Projeto de Vida, Saúde Coletiva, Terapia OcupacionalResumo
O crescimento da população prisional feminina constitui fenômeno relevante para a Saúde Coletiva. O encarceramento de mulheres em condição de sentenciamento produz impactos sobre o cotidiano, vínculos sociais, projetos de vida e perspectivas de futuro. Este estudo objetiva compreender de que modo a experiência do cárcere influencia as perspectivas de futuro de mulheres privadas de liberdade. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, desenvolvida em um presídio feminino no interior do estado de Sergipe, com a participação de mulheres sentenciadas. A produção de dados ocorreu por meio de três procedimentos articulados: análise documental de processos e prontuários; entrevista semiestruturada; e uma atividade expressiva (pintura) como dispositivo de escuta e produção de sentidos. Os resultados evidenciam incidência ambivalente do encarceramento sobre os projetos de vida, podendo tanto interromper trajetórias quanto favorecer reorganizações subjetivas e construção de expectativas futuras, especialmente mediadas por vínculos familiares e oportunidades institucionais. Observa-se, contudo, que danos relevantes extrapolam o período intramuros, expressando-se no estigma, na fragilidade das redes de apoio e na insuficiência de políticas públicas para o pós-cárcere. Conclui-se que a escuta qualificada dessas mulheres é estratégica para subsidiar práticas e políticas intersetoriais sensíveis ao cotidiano, à subjetividade e à reintegração social no sistema prisional feminino.
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